segunda-feira, dezembro 4, 2023
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Surpreendente queda da produtividade na maior economia do planeta

por José Martins, da redação

Um fato instigante aos bons economistas pode ser observado no relatório sobre Produtividade e Custos, 1º trimestre 2019, publicado nesta quinta-feira (06) pelo Departamento do Trabalho dos Estados Unidos.

Verifica-se que nas esferas improdutivas da economia – agrupadas no relatório nas rubricas Nonfarm business e Business – registra-se elevações tanto da produção (3.9%, em termos anuais) quanto da produtividade do trabalho (3.4%), paralelamente a uma forte queda do custo unitário do trabalho (-1.6%).

Entretanto, nas suas esferas produtivas de mais-valia – agrupadas nas rubricas manufaturas de duráveis e de não duráveis – ocorreu exatamente o contrário. Queda tanto da produção ( – 2.8% anualizado), quanto da produtividade do trabalho (- 2.8%), paralelamente a uma fortíssima elevação do custo unitário do trabalho (2.7%).

É muita discrepância para não ser levada em conta. Uma abissal assimetria entre as duas esferas.  Enquanto as improdutivas aumentam o produto quase 4% ao ano, no mesmo período as esferas produtivas desabam quase 3%. Enquanto a produtividade sobe a incríveis 3.4% nas primeiras, desabam pesadamente quase 3% nas segundas.

Há um claro problema teórico por trás deste fenômeno. Nos cursos das faculdades de Economia de todo o mundo a maioria quase absoluta dos economistas do mercado não foram preparados para elucidar este problema.

Os economistas do BLS não devem ser incluídos nesta manada. Não atropelam a teoria. Corretamente, seu relatório não oferece nenhuma “média das duas esferas” (improdutivas ou produtivas).

São duas coisas que não se misturam. Impossível. Seria o mesmo que fazer uma esdruxula média entre produto bruto (PIB) de bens e utilidades em geral, com produção industrial de mercadoria-capital.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Portanto, recomenda-se fortemente a todo analista com um mínimo de seriedade que não misture alhos com bugalhos quando estiver procurando neste relatório a real evolução da produtividade e medidas correlatas na economia estadunidense.

Uma séria prospecção do ciclo econômico não admite esse tipo de vacilo na análise do mundo real.

Principalmente se estiver procurando descobrir o seguinte: o que vai acontecer no atual ciclo econômico nos próximos trimestres do ano? Qual o cenário mais provável e os menos prováveis para a economia mundial até o final do ano?

É para isto que existem os economistas. Para responder de maneira desinteressada a estas perguntas.

Caso contrário, só engrossarão a manada global de sabujos adestrados nas academias para proteger seus patrões na trágica tarefa de massacrar a classe proletária internacional.

Tomando esta precaução teórica, pode-se então se estabelecer com razoável proximidade a mais provável evolução cíclica do nível de extração da mais-valia da classe operária mundial – e, consequentemente, a dinâmica interna dos preços e lucros na totalidade da economia capitalista.

Os dados de produtividade e custos publicados na data de hoje pelo BLS foram revisados com relação àqueles publicados há mais de um mês. São mais seguros para as conclusões da análise. Não devem mais sofrer mais muita alteração.

E o que se observa é que a abrupta queda da produção e produtividade no setor de bens de consumo duráveis – que inclui os ramos industriais reguladores do sistema, com maior composição orgânica do capital – é acompanhada com a mesma gravidade por outras estratégicas variáveis correlatas.

As horas trabalhadas, por exemplo, caíram 2.2% no 1º trimestre de 2019. Essa é uma variável de força para traçar cenários de emprego da força de trabalho nos trimestres seguintes.

A gravidade deste número fica mais evidente ao se observar que até o último trimestre de 2018 havia um forte e ininterrupto ritmo de crescimento do emprego industrial dentro da atual fase de expansão cíclica, iniciada dez anos atrás.

As horas trabalhadas fecharam o ano passado em forte expansão de 2.2%, depois de crescer 3.8% no 3º trimestre e 2.6% nos últimos três meses do ano.

É por isso que a forte queda no 1º trimestre 2019 pode representar o ponto de reversão do ciclo atual. O mais provável é que, doravante, a geração de novas vagas de trabalho na economia como um todo sofrerá forte desaceleração e, finalmente, queda.

Outra importantíssima variável publicada neste relatório é a do salário real médio dos trabalhadores industriais.

Na economia reguladora do mercado mundial os salários foram praticamente congelados nos últimos nove anos de expansão do capital. Na base 2010=100, a produção industrial de valor e de mais-valia expandiu 10%, enquanto a massa salarial real cresceu 3%.

O arrocho salarial na economia de ponta do sistema acompanhado por uma taxa de virtual pleno emprego da massa de trabalhadores é um fenômeno marcante do atual período de expansão dos últimos dez anos.

Como veremos em próximos boletins, pleno emprego e arrocho salarial destroem tradicionais mitos teóricos da economia vulgar (Curva de Philips, por exemplo) e transforma todos os padrões tradicionais de política monetária nas principais economias dominantes do sistema – EUA, União Europeia e Japão.

Nesta sexta-feira (07) o BLS deve divulgar outro importante relatório sobre a evolução do emprego e desemprego da força de trabalho nos EUA nos últimos meses.

Devem ser anunciado outros dados com mudanças importantes para esta nossa prospecção do final de um ciclo econômico que já se prolonga teimosamente por dez longos anos. Continuaremos em cima do lance!

 

 

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